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Balança Comercial do Agronegócio do Nordeste 2018-2019

1 CONJUNTURA ECONÔMICA

Dados do Produto Interno Bruto (PIB) indicam ainda lenta recuperação da economia brasileira, que encerrou 2019 com crescimento de 1,1% em relação a 2018. No acumulado do ano, o PIB foi de R$ 7,3 trilhões, em valores correntes. No recorte setorial, o destaque foi o Agropecuário, com alta de 1,3%, com resultados positivos em ambos os segmentos, agricultura e pecuária. Na metodologia do CEPEA/Usp, o PIB do Agronegócio cresceu 3,81% em 2019, superior à média da economia brasileira. Com isso, em 2019, o Agro ampliou sua participação na economia, 21,4%. A alta do segmento pecuário foi consequência do bom desempenho das exportações de carnes. O surto de Peste Suína Africana (PSA) na Ásia reduziu a produção doméstica de proteína animal, aumentou a demanda via importações e aqueceu preços internacionais. Oportunamente, o Brasil produziu mais e vendeu com melhor preço. Para 2020, a previsão do Ipea para o PIB Agropecuário é de alta de 3,4%, considerando a previsão de safra do IBGE. No caso da estimativa da Conab, 4,1%. 

Oportunamente, o prolongamento ou a intensificação do surto do Covid-19 implicaria em desaceleração adicional global, com impactos sobre os preços das commodities e de importantes ativos financeiros. Assim, o pânico atingiu os mercados, os bancos centrais do mundo adotaram medidas para minimizar o impacto sobre suas economias, em especial sobre o funcionamento do mercado de crédito, ao reduzir as taxas de juros e ampliar a liquidez do sistema. Como exemplo, o Banco do Nordeste anunciou (17 de Março), a possibilidade de prorrogação de empréstimos e financiamentos por até seis meses, para empreendimentos impactados pelo surto do Coronavírus, a exemplo do que se verifica no setor de turismo. Para o setor rural, será conferida priorização no atendimento às operações de crédito de custeio, considerando o calendário agrícola da região, e disponibilizados R$ 4,4 bilhões entre abril e setembro de 2020, o que representa incremento de mais de 50% em relação ao mesmo período do ano passado. 

Com relação ao planejamento da produção agrícola brasileira, analistas destacam: 1) reabertura do mercado asiático para importações e fechamento do europeu; 2) queda dos preços do petróleo (consumo global está em queda) e possibilidade de redução da produção mundial (Arábia Saudita vs Rússia); 3) valorização cambial do dólar em relação ao real; bem como, 4) atenção nas relações de trocas (produto vs insumos importados), com possível dificuldades de aquisição de insumos externos; 5) dirimir o risco de perdas futuras, até porque não há previsões acuradas de melhores preços para produtos que ainda não foram negociados.

2 COMÉRCIO EXTERIOR DO AGRONEGÓCIO DO BRASIL

O volume total de produtos do agronegócio nacional cresceu 5,52% entre 2018 e 2019. Foram embarcados mais de 200 milhões de toneladas de produtos agrícolas, com faturamento bruto de US$ 97,39 bilhões em 2019. Em meio aos inúmeros desafios da economia mundial, historicamente o Agronegócio tem aumentado significativamente sua participação na balança comercial do País. Em 2019, o Brasil movimentou cerca de US$ 111 bilhões em transações comerciais, superávit de US$ 83 bilhões. Desempenho cerca de 4% abaixo de 2018, cujo valor total de transações comerciais foi de US$ 115 bilhões.

O Brasil exportou para 226 países em 2019 e importou de 158. A China é o principal destino das commodities brasileiras, cerca de 32% do valor total das exportações. Em relação às importações, a Argentina é o principal fornecedor, e atende 25% da demanda total do Brasil. De forma geral, destacam-se as altas das exportações de cárneos (17,63%) e a redução das exportações do complexo soja (soja em grãos, farelo de soja e óleo de soja) da ordem de US$ 8 bilhões (-16,18%).

Tabela 1 -  Principais países de destino e de origem das commodities agrícolas brasileiras

Fonte: Banco do Nordeste/Etene, com dados do MAPA/Agrostat.

3 COMÉRCIO EXTERIOR DO AGRONEGÓCIO DO NORDESTE

As transações comerciais do Nordeste com o mundo totalizaram, em 2019, US$ 9,93 bilhões, gerando superávit de US$ 5,41 bilhões. Apesar de pouco abaixo de 2018, é muito relevante, considerando a retomada de 46,33% em relação a 2016 (US$ 3,70 bilhões), pós crise 2014-2015. Oportunamente, a Região reduziu a dependência relativa de importação (29%), bem mais significativa que outras regiões como a Sudeste (74%), em 2019. Este recuo no valor do comércio exterior de 11,50% do Brasil foi influenciado pelo movimento do “complexo soja”, redução das exportações (-15,25%) e aumento das importações (58,34%), considerando que fora responsável por 51,51% (7,93 milhões de toneladas) do volume total das exportações totais do Nordeste em 2019, 15,4 milhões de toneladas.

Em 2019, foram exportados 15,4 milhões de toneladas (mais de 1 mil produtos) de commodities agrícolas para 167 países, enquanto que mais de 5 milhões de toneladas vieram de 85 nações. China (US$ 2,87 bilhões) e Estados Unidos (US$ 986 milhões) concentraram 50,30% do total de exportações.  Os Estados Unidos, até 2010, eram o principal cliente das commodities do Nordeste, mas anteriormente, em 2008, a crise abalou as principais economias, como dos Estados Unidos e da Europa. Ao contrário, com vigorosas taxas de crescimento, os países emergentes, em boa parte grandes produtores de produtos primários (ou abundantes recursos naturais), alavancavam suas vendas externas, e o gigante mercado chinês absorveu. Neste aspecto, a soja foi a bola da vez. Para se ter melhor ideia da importância da soja nas exportações nordestinas, entre 2016 (pós-crise 2014-2015) e 2019, o faturamento bruto cresceu 113%, de US$ 1,29 bilhão para US$ 2,74 bilhões, respectivamente, e, relativamente passou de 21,70% e 35,77% das exportações. Ainda em relação a China e os Estados Unidos, neste mesmo período, as exportações cresceram a taxas de 28,25% a.a. e 4,63% a.a., ao passo que as importações foram de 5,96% a.a. e queda de -6,87% a.a.

Assim, os cerrados nordestinos (Bahia, Maranhão e Piauí, com tecnologia, solo e clima favoráveis, agricultores experientes, além da política nacional de desenvolvimento científico, tecnológico e de crédito embutidos no Fundo Constitucional do Nordeste – FNE), têm sido excepcional ambiente de negócios para a economia do País. Nestas condições, segundo dados mais recentes da PAM – Pesquisa Agrícola Municipal (IBGE, 2020), em 2018, a Bahia foi o estado de maior produtividade de soja do País, 3,94 ton/ha. Ressalta-te também a produtividade de trigo da Bahia (Luiz Eduardo Magalhães e Riachão das Neves, microrregião de Barreiras), lavoura recente no Nordeste, implantada em 2015 com apenas 500 hectares, cresceu cerca de 9 vezes, fechando 2018 com 4,54 mil hectares e produtividade de 6 toneladas/ha, consolidando-se, também como a melhor produtividade do País. Complementa-se que é lavoura típica de clima temperado, mas as variedades desenvolvidas pela Embrapa proporcionam na Bahia indicadores técnicos superiores às culturas de inverno no Sul, como a farinha de excepcional qualidade industrial, a resistência à debulha e, moderadamente, ao acamamento. Se há elevada demanda insatisfeita do Nordeste, que é atendida pela Argentina (Tabela 1), a Bahia ainda tem muito a contribuir na substituição de importação de trigo e de seus produtos. Em razão da presença de grandes moinhos que importam muito trigo e farinha, Bahia, Ceará e Pernambuco são os grandes importadores da Região, com os maiores valores importados em 2019 (US$ 216 milhões, US$ 214 milhões e US$ 236 milhões, respectivamente).

4 PERSPECTIVAS

Estima-se as exportações para 2020 sofram redução de cerca de 16%, com retomada em 2021 ao patamar de 2019, considerando que: a) grandes importadores de commodities estão superando a crise, a exemplo da China e outros países asiáticos; b) os problemas sanitários, decorrentes da peste suína e gripe aviária que atingem a Europa e a Ásia, tendem a manter aquecidas as vendas do complexo soja e de carnes; c) que o Brasil é grande produtor mundial de produtos primários e está neutro às tensões geopolíticas presentes em 2019; d) quebra da safra de soja na Argentina e excedente de produção de milho, pela queda da demanda doméstica, alimento e álcool; e) a estimativa de cotação acima de R$ 4,5/US$ será favorável ao setor; f) as medidas de flexibilidade do Banco Central brasileiro, associadas aos Fundos Constitucionais para investimento e custeio, serão um diferencial importante em 2020 para retomada da produção a curto e médio prazo.

Os primeiros impactos na economia global decorrentes da pandemia pelo Covid-19 se relacionam às atividades exportadoras (commodities etc.), porque o surto teve origem na China e se espalhou pela Europa, mas também aos impactos no setor industrial, que têm a China o principal fornecedor de insumos. Independentemente do setor ou da atividade econômica específica, os empreendimentos de menor porte (informais e Micro e Pequenas Empresas) serão os mais atingidos negativamente. São negócios preponderantemente dependente de fluxos de caixa e têm configurações que os tornam mais vulneráveis às crises de qualquer ordem. Devido ao isolamento, por consequência econômica, há retração de consumo geral de produtos, especialmente daqueles que não são de primeira necessidade. Da mesma forma, os orçamentos dos países se voltam para esta circunstância emergencial de saúde.

Pondera-se, por fim, que a pandemia vai passar e que a magnitude social e econômica das suas consequências no mundo depende das ações individuais e coletivas de mitigação de risco de transmissão. Em alguns países da Eurásia a doença está regredindo (Coreia do Sul, Áustria, Noruega) e seus governos já anunciaram a flexibilização das medidas restritivas de isolamento em breve, ativando gradualmente os setores prejudicados. A região Nordeste teve papel importante para a economia nacional e continuará a crescer por meio do Agronegócio.

Fonte: Caderno Setorial ETENE