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O mercado do boi gordo em novembro

O mês de novembro de 2019 deve ser lembrado por muitos anos pela pecuária nacional. O período foi marcado por preços recordes reais do boi gordo (considerando-se a série do Cepea, iniciada em 1994) e da carne no atacado (série iniciada em 2001). Apesar da menor quantidade de negócios na última semana do mês e até mesmo do recuo de 4,4% na cotação no último dia, a alta acumulada foi de 29,5%. A valorização era esperada, mas a intensidade foi histórica.

 

Variações de novembro 

No encerramento de novembro, a arroba do boi fechou a R$ 231,35, acumulando forte elevação de 35,53% (entre 31 de outubro e 27 de novembro). A média mensal da arroba foi de R$ 201,16, um recorde, 23,2% superior à de outubro/19 e 31,6% acima da de novembro/18, em termos reais. Para a carne, a carcaça casada do boi apresentou consecutivos recordes diários reais do dia 8 de novembro até o final do mês.

Em termos anuais, a variação da cotação da arroba do boi gordo em novembro foi a maior desde 2004, e, de longe, maior que a variação de novembro de 2007, onde alcançou seus 14,4%, logo após a forte queda de preço de 2005 e 2006, marcada pelo episódio do surto da febre aftosa em Mato Grosso do Sul. Em retrospectiva, houve outros momentos em que o mercado ficou sem referência. Vale lembrar episódios como a Operação Carne Fraca e a delação dos irmãos Batista (JBS), mas nada que se comparasse a novembro de 2019. 

Figura 1 - Variação da cotação da arroba do boi gordo nos meses de novembro - 2004 a 2019.
 

https://www.scotconsultoria.com.br/bancoImagensUP/191205-artigo-1.jpg
Fonte: Scot Consultoria (2019).


Análise

Segundo pesquisadores do Cepea, esse cenário foi resultado das aquecidas demandas externa e interna e da baixa oferta de animais prontos para abate. Do lado da demanda, no mercado doméstico, a melhora do consumo é comumente prevista para o final do ano, quando atacadistas se abastecem, à espera de aumento na procura por carne.  Com as contratações temporárias e o recebimento do décimo terceiro salário, o poder aquisitivo melhora, favorecendo ao aumento no consumo de carne nesse período, especialmente com a proximidade das festas de fim de ano, fatores que contribuem positivamente com o mercado o boi gordo.

No caso das exportações, pesquisadores do Cepea destacam que o volume embarcado pelo Brasil se mantém acima das 100 mil toneladas desde julho de 2018, resultado que tem sido influenciado especialmente pela demanda chinesa. Em outubro, vale lembrar, o volume de carne bovina exportada pelo Brasil foi recorde (de 170,5 mil toneladas) e, em novembro, mais 155,58 mil toneladas foram embarcadas, segundo dados da Sec. Esp. de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais (Secex), do Ministério da Economia.

 

Demanda chinesa

Os consumidores brasileiros têm pago mais pela carne. As compras chinesas, para preencher o ‘’buraco’’ deixado pela peste suína africana, que dizimou metade do rebanho de suínos da China, foi e tem sido uma das razões deste quadro. 2019 foi o único ano, desde 1997, em que a exportação de carne bovina esteve acima de 100 mil toneladas em todos os meses.  Em outubro e novembro apuraram-se os maiores volumes, e isso se deve ao incremento de plantas que foram habilitadas para exportar para a China no período. Quarenta indústrias frigoríficas foram habilitadas para exportar e atender ao mercado chinês, aumentando a procura por boiadas.


De janeiro a novembro, a exportação foi de 1,40 milhão toneladas de carne bovina in natura, desse montante 29,2% foram para os chineses, ou 410,41 mil toneladas, segundo a Secex. A maior demanda, associada à baixa disponibilidade de bovinos terminados, enxugou os estoques, provocando a elevação das cotações do boi gordo em todas as praças pecuárias. 

 

Considerações finais 

A volatilidade chegou ao topo no próprio mês de novembro, quando o escoamento da carne, no mercado interno, perdeu velocidade e a cotação do boi gordo esbarrou no repasse do varejo para o consumidor. No entanto, a demanda chinesa deve continuar firme, já que a crise oriunda da peste suína africana deve se estender para 2020, e, portanto, a procura por carne, não somente brasileira, deverá continuar. 

Quanto à oferta de animais, segue restrita em todas regiões acompanhadas pelo Cepea. De modo geral, o crescente abate de fêmeas em anos recentes resultou em restrição de oferta de animais. Nesse sentido, a pecuária nacional vai ter que responder com aumento de produtividade para conseguir atender à crescente demanda por novos lotes para abate, tendo em vista que o abate de fêmeas atingiu volumes recordes nos primeiros meses deste ano. Em função desses fatores, a cotação do boi gordo permanecerá apresentando firmeza, com ajustes naturais decorrentes das estações do ano.

 

Referências bibliográficas

DRUGOWICK, T. O que aconteceu com o mercado do boi gordo em novembro. Scot Consultoria. Publicado em 05 dez. 2019. Disponível em: <https://www.scotconsultoria.com.br/noticias/artigos/51673/o-que-aconteceu-com-o-mercado-do-boi-gordo-em-novembro.htm>. Acesso em 05 dez. 2019.

CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA (CEPEA). Agromensal – Boi – Análise Conjuntural – Análise Cepea. São Paulo: Universidade de São Paulo. Publicado em 06 dez. 2019. Disponível em: <https://www.cepea.esalq.usp.br/upload/revista/pdf/0814384001575643940.pdf>. Acesso 09 dez. 2019.