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Previsões sobre o Mercado de Insumos Agrícolas para os próximos 5 anos

Depois de 25 anos trabalhando para empresas provedoras de tecnologia e na distribuição de insumos agrícolas, tenho me atrevido a olhar muito o mercado de novas tecnologias e liderando a implementação e a criação de novas empresas. Além disso tenho dedicado algum tempo para compartilhar algumas ideias, inspirações, “conselhos” e pontos de vistas para algumas empresas de conteúdo para o agronegócio.

Tenho me dedicado a olhar um pouco o mercado de distribuidores de insumos agropecuários, e  eu queria dividir com vocês alguns desafios que iremos enfrentar e até algumas previsões ousadas sobre todas essas mudanças que esse setor está atravessando e que atravessará nos próximos 5 anos e também me atrevi a dar algumas recomendações.

Temos alguns desafios para enfrentar nos próximos 5 anos e esses serão chaves para todas as minhas previsões:

  • Consolidação da Indústria: Com a falta de inovação, as indústrias buscam por excelência operacional e consequentemente isso aumenta  as fusões e aquisições e com isso teremos linhas de produtos muito similares e sem diferenciação que comoditizam o setor, ou seja, distribuidores precisarão ganhar escala, ser multi bandeiras, buscar maior eficiência operacional e até mesmo ter as suas marcas.
  • Dependência Ásia: Principalmente a indústria química tem na Ásia sua principal fonte de matéria prima, 60% dos insumos químicos e ativos vem da China e da Índia, e qualquer solavanco que ocorre lá teremos consequências aqui. Falta de produtos, Aumento de preços, dificuldades de fontes, fechamento de fábricas, são fatos que já estamos presenciando.
  • Mudança do Perfil do Agricultor:  A consolidação dos agricultores também aconteceu nas últimas duas décadas. Jovens agricultores com mais ambição para crescer estão surgindo e estão mais abertos a tecnologias, menos fiéis às empresas e marcas e mais informados. Programas de sustentabilidade e descarbonização são adequados para operações maiores e que exigem requisitos agronômicos mais complexos. A questão em aberto para a agricultura é semelhante à dos varejistas: que nível de escala deve ser alcançado para garantir a viabilidade a longo prazo?
  • Multicanais e novos modelos de negócio: inúmeros marketplaces, franquias, lojas próprias, expansão das plataformas para o Sul e das cooperativas para o Cerrado estão mudando a dinâmica de atendimento e de precificação dos insumos.
  • A Transformação Digital foi acelerada com a pandemia e muda a forma como os negócios serão feitos e como as inovações serão difundidas e abre oportunidades para novos modelos de negócio. Hoje no Brasil nasce uma Agtech por dia e uma delas pode ser disruptiva para o negócio.
  • O Crescimento do Brasil no Agro vai atrair maior protecionismo por parte de alguns países e ações como From Farm to Fork, Onu Summit, pautas de ESG, rastreabilidade crescerão em importância. Além de ser o país que tem a agricultura mais sustentável do planeta, teremos que provar que temos.

Com todas essas mudanças no setor, como excesso de ofertas, facilidade de encontrar os produtos e maior concorrência, entender o agricultor e a sua jornada serão fundamentais para as empresas que querem crescer e aumentar a sua importância.

Com todos esses cenários eu me arrisco a fazer algumas previsões para os próximos 5 anos:

A ANDAV atualmente possui entre os seus associados 1905 empresas, presentes em 680 municípios. Nos próximos 5 anos, os grupos de empresas com faturamento acima de R$ 2 bilhões de reais representarão 50% do mercado. E esse clube, provavelmente ficará restrito ao clube dos 10, onde teremos 3-4 cooperativas e 6-7 empresas privadas, ou seja, com números bem parecidos ao que vemos no mercado de insumos norte americano, que tem o mesmo tamanho que o nosso, na ordem de R$ 160 bilhões e onde as 7 maiores representam 69 %.

Nosso mercado de insumos agrícolas no Brasil, com o tamanho do mercado americano e com tendência de maior crescimento nos próximos anos, é o mais atrativo do planeta. Só para se ter uma ideia com outros mercados, o de eletroeletrônicos no Brasil corresponde a R$ 173 bilhões de reais e o de Farmácias a R$ 110 bilhões, e estamos assistindo à mesma dinâmica de consolidações e transformações.

Essas top 10 fizeram investimentos significativos em pessoas, infraestrutura e tecnologia para desafiar a concorrência, aumentaram o número de lojas, consolidaram parcerias, construíram linhas próprias e alguns deles com verticalização dos seus negócios que aumentam a fidelidade dos agricultores.

Competir neste ambiente será extremamente desafiador e pequenos erros podem ser fatais, principalmente em um ambiente de margens espremidas e risco como é o nosso setor.

O grupo seguinte de empresas, entre R$ 500 milhões e R$ 2 bilhões, ficará maior, crescerá significativamente, na medida em que os grandes fiquem com estruturas mais inchadas e menos ágeis, fazendo com que os outros 90 maiores distribuidores passem a representar outros 40%, totalizando 90% do mercado.

À medida que mais consolidação ocorra entre esses, a parte inferior se tornará ocupada por varejistas agrícolas menores, com maior foco em serviços, especialidades e até mesmo novos modelos de negócio, como a franquia de um homem só, crescerão exponencialmente. Vimos isso ocorrer no mercado de cosméticos, de catálogos etc. O Marketing Multi nível chegará ao agronegócio.

No final do dia em sua jornada de Investigação, Planejamento, Experiência e Resultados, o agricultor quer e necessita de 4 coisas:

  • Aumentar a produtividade
  • Reduzir os seus custos
  • Assegurar a comercialização
  • Reduzir os seus riscos

E para entender essa jornada, os distribuidores sobreviventes terão que concentrar os seus esforços em 10 pontos:

1 – Precisam desenvolver uma forte proposta de valor que atenda às necessidades de mudança do produtor e aprender a cobrar por seus serviços.

2 – Precisam aprender a usar a tecnologia para interagir com mais frequência e de forma eficiente com seus clientes. Vejam o sucesso do WhatsApp como ferramenta de venda nesses dois anos de pandemia. Ferramenta simples, prática e ágil.

3 – Terão inteligência que permitam a identificação dos produtores de hoje que sobreviverão aos próximos 5 anos. Estamos vivendo um boom de commodities, mas sabemos que a agricultura é cíclica. Entender e prever o que irá acontecer com seus agricultores é fundamental. Temos vividos três anos muito bons em termos de recebimento de contas, mas sabemos o quanto já sofremos com isso.

4 – Terão que desenvolver e executar um plano de negócio estratégico. Precisam ter claros de quem eles são hoje e quem eles querem ser. Sem saber para onde quer ir, será impossível sobreviver a essa tormenta.

5 – Mudarão a sua forma de contratar vendedores, dos tiradores de pedidos e transacionais para os vendedores profissionais, que tenham experiência em negócios e conhecimento de produtos e serviços. Eles terão retido e trazido a elite, que são importantes para ajudar o agricultor na tomada de decisões. Os vendedores que vendem commodities e tem como proposição o desconto e a abordagem somente comerciais serão substituídos pelo clique.

6 – Terão que desenvolver programas que os tornem melhores em segmentar e compreender seus clientes e clientes potenciais.

7 – Terão que ser proativos em abraçar novas formas de pensar e novos desafios. Veja a oportunidade no interesse do consumidor sobre como a agricultura opera e assuma o controle em meio aos desenvolvimentos incertos que virão em áreas como tecnologia, sustentabilidade e programas de carbono.

8 – Terão que entender que, para a sua proposta de valor, a chave não é cobrar o mesmo preço de todos; é cobrar um preço justo de todos, com base no que eles querem / no que eles precisam, ou seja, exatamente o mesmo preço para qualquer pessoa que tenha os mesmos requisitos, e isso deve ser separado do preço dos produtos.

9 – Terão que desenvolver parcerias sólidas com seus clientes, seus fornecedores e seus colaboradores, reconhecendo que embora não possam fazer isso sozinhos, serão mais resilientes e engenhosos com relacionamentos comerciais confiáveis e garantidos em toda a linha.

10 – Nunca percam de vista os fundamentos do negócio. Produtos, excelência em processos, gerenciamento de risco, geração de demanda, foco no cliente e ter as melhores pessoas, e sempre medir e controlar para saber se está indo para a rota correta.

Autor: Renato Seraphim é Agrônomo formado pela Unesp, possui pós-graduação em Marketing pela FGV e especialização em Agronegócio pelo Pensa-USP, FDC, Insead e Purdue University. Com 25 anos de experiência em Agronegócio, atou por importantes companhias do setor.

Fonte: Avicultura Industrial

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