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Reinvenção dos mercados da agricultura familiar no Brasil: a novidade dos sites e plataformas digitais de comercialização em tempos de Covid-19

(Texto extraído de artigo do periódico Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, p. 427-460,jun. 2021)

Acesse o artigo completo aqui).

De fato, com a crise sanitária, tem-se uma aceleração do processo de desenvolvimento dos chamados mercados digitais, que emergem como alternativa comercial criativa. Por exemplo, a pesquisa de Cubides Zuñiga, Cubides Zuñiga e Lugo (2020), sobre as plataformas de vendas da agricultura familiar durante a pandemia da Covid-19 na América Latina e Caribe, evidencia esta realidade, pois identificou que aproximadamente 30% das vendas são realizadas pelos sites, que só ficam atrás de redes sociais como WhatsApp, que é a ferramenta tecnológica mais utilizada. No Brasil, porém, ainda se sabe pouco ou quase nada sobre essas novas dinâmicas.

Características dos novos mercados digitais da agricultura familiar brasileira durante a crise sanitária da Covid-19

Como visto anteriormente, os mercados digitais da agricultura familiar se expandem pelo mundo afora e representam um canal de vendas importante em tempos de pandemia da Covid-19. No Brasil, estas novidades surgiram de múltiplas fontes e têm características variadas. Conforme observado na Tabela 1, a principal motivação para a criação das experiências, com 25,43% das respostas identificadas, está associada à busca de novas (re)conexões entre a produção e os consumidores de alimentos. Esta forma de comercialização é o que a literatura tem chamado de cadeias curtas agroalimentares ou mercados de proximidade.

Tais tipos de mercados, especificados na segunda seção deste artigo, se caracterizam pela proximidade social e espacial entre agricultores familiares e consumidores urbanos, maior grau de autonomia produtiva e comercial e maiores níveis de sustentabilidade ambiental nas práticas agrícolas adotadas. Também são chamados de mercados que (re)conectam os consumidores com a natureza, os alimentos e a saúde e nutrição, pois privilegiam uma interação aproximada, simbiótica entre produção-consumo e processos sociais que fortalecem a confiança entre os participantes dos processos de trocas. A novidade atual, vale reforçar, é que a interface de construção social destes mercados passa a ser tecnológica ou sociotécnica, a partir da interação entre atores sociais em sites e plataformas no decorrer da pandemia.

Nesta direção, levantamento da Emater de Minas Gerais (2020) também verificou que, em 88% dos casos, a produção dos AFs escoada pelos canais virtuais era entregue diretamente aos consumidores, reforçando os dados ora encontrados. Já o estudo de Carvalho (2015), que analisou o uso do e-commerce nas organizações da AF, concluiu em direção oposta. A autora relata que a falta da interação face a face dificulta as transações, em razão da desconfiança entre os atores sociais, especialmente em relação às incertezas do ambiente on-line e à dificuldade de se avaliar a qualidade dos produtos adquiridos (não se pode tocá-los, olhá-los ou cheirá-los). Provavelmente, parte dessas dificuldades foi contornada no período da pandemia, uma vez que as medidas de isolamento social e os riscos de contaminação tendem a induzir os consumidores a flexibilizarem seus hábitos de compra em favor dos mercados digitais.

A outra origem dos sites e plataformas é formada por uma diversidade de aspectos multifacetados, que perfazem 16,94% das observações encontradas. Na lista desses aspectos aparece um conjunto variado de motivações para formalizar experiências da agricultura e agroindústria familiar, a própria pandemia da Covid-19 (explicitada claramente em três sites), a busca de relações mais igualitárias de gênero e juventude, a tentativa de melhoria dos processos de geração de renda dos AFs, o estimulo à participação política dos atores e a promoção da produção dos AFs com selo Senaf (Selo Nacional da Agricultura Familiar).

 

Tabela 1 – Principais motivações para o surgimento das iniciativas de comercialização digital da agricultura familiar no Brasil, 2020

* A maioria dos sites e plataformas digitais estudados elenca mais de um motivo para sua criação. Dessa forma, o total de observações supera o número geral da amostra (38).

Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2020).

 

Muitas experiências de comercialização digital da AF também se originaram de ações públicas do Estado, em vários níveis territoriais, perfazendo 15,26% das indicações nos sites. Destacam-se as políticas públicas para a AF, por exemplo, as vendas para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), as políticas estaduais como as de Arranjos Produtivos Locais (APLs), as políticas municipais, especialmente as formuladas por Secretarias de Agricultura, os estímulos de órgãos de assistência técnica e extensão rural (Ematers), a atuação de universidades e institutos federais e estaduais na criação e manutenção de plataformas, processos de geração de novos negócios e incubação de startups e o próprio portal criado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em âmbito nacional, mas com pouca adesão dos AFs.

Ainda em relação à gênese dos mercados digitais da AF, em menores percentuais na Tabela 1, 11,86% das motivações identificadas se referem à busca de maiores níveis de sustentabilidade ambiental das práticas produtivas e comerciais, bem como fornecer alimentos ecológicos aos consumidores. Com esta mesma participação aparece também a oferta de conhecimentos sobre a produção e a necessidade de aumentar os níveis de agregação de valor aos alimentos comercializados. Pode ser verificado que 10,17% das observações registradas na referida tabela sinalizam que muitas iniciativas nasceram da necessidade de conhecimentos da origem dos alimentos na cadeia de produção, somada à ideia de um consumo mais responsável e uma alimentação saudável. Outros 8,48% das indicações coletadas mencionam que a criação dos sites e plataformas ocorreu somente pela motivação de comercializar seus alimentos e produtos com mais facilidades, abrindo um novo canal de vendas, especialmente depois do início da crise sanitária da Covid-19.

Neste sentido, vale ressaltar que aproximadamente 30% da amostra selecionada menciona a pandemia em seus conteúdos e menus, embora não deixem explícito se ela realmente foi o motivador da sua criação. Apenas três dos 38 sites analisados afirmam claramente que a pandemia os fez usar a estratégia digital de vendas de alimentos. A maioria das plataformas já existia antes da pandemia e outras estavam em elaboração pelos atores sociais, sendo que, com a deflagração da crise do coronavírus, estes processos foram acelerados de forma a torná-las utilizáveis rapidamente para suprir as necessidades de escoamento da produção dos agricultores.

Considerações finais

O objetivo deste trabalho foi analisar as características dos novos mercados digitais da agricultura familiar no Brasil durante pandemia da Covid-19, especialmente as (re)conexões a partir de sites e plataformas digitais de comercialização de alimentos e produtos com consumidores e populações urbanas. As conclusões mais importantes remetem a um conjunto de quatro achados científicos sobre o tema pesquisado. O primeiro é a capacidade de se reinventar dos AFs e suas organizações sociais em relação aos seus mercados e canais de comercialização. Com a crise sanitária, os agricultores inseridos nos mercados digitais estão conseguindo mostrar sua resiliência e criatividade ao iniciarem processos de uso das TICs para vender seus produtos e alimentos a partir da construção de novas cadeias curtas, que atuam como uma interface tecnológica ou sociotécnica com os consumidores.

O segundo achado é que as experiências demonstram a vocação histórica dos AFs no uso da sua força de trabalho, recursos territoriais e conhecimentos para a produção e comercialização de alimentos para o abastecimento da sociedade urbana. A pesquisa demonstrou que mais de 90% dos itens ofertados são de alimentos. Ligada a esta conclusão, está a que os alimentos possuem características variadas e narrativas construídas pelos atores sociais que gestionam os sites visando uma nova concepção de qualidade, voltada para a alimentação sustentável e para a construção de dietas saudáveis, já que a maioria dos alimentos e produtos vendidos são in natura, ecológicos e de agroindústrias. Estes aspectos são de extrema importância, pois evidenciam a capacidade dos AFs abastecerem as sociedades com alimentos saudáveis e sustentáveis, podendo-se constituir uma ‘nova narrativa’ para eles, que fuja da antiga do ‘mais alimentos’ (‘AF produz 70% dos alimentos do país’), para uma nova que é a de alimentar a sociedade com comida de qualidade.

Com efeito, o terceiro achado da pesquisa é que a constituição de estratégias para acesso aos mercados on-line pelos AFs não é possível de modo individualizado. A investigação demonstrou a necessidade dos AFs trabalharem de forma coletiva para construção social destes mercados, especialmente via cooperativas e associações. Por fim, o quarto achado refere-se à baixa participação do Estado na configuração da dinâmica estudada, aparecendo apenas em apoios pontuais por meio de ações públicas em diferentes níveis territoriais, bem como não se encontrou nenhuma política pública específica em direção à digitalização. Isto é preocupante, haja vista que cabe ao Estado o apoio na construção destes mercados, considerando que as compras on-line são essenciais para manter o distanciamento social durante a crise sanitária vivenciada e se constitui em uma tendência do futuro para dar vazão à oferta alimentar dos AFs.

Portanto, torna-se claro o papel da ação coletiva para a construção de novas estratégias dos AFs em seus processos de comercialização, tendo como base as ferramentas digitais. É de se esperar que esta novidade tenha ampliado o seu raio de alcance com a pandemia da Covid-19, embora seja necessário levantar mais evidências para confirmar esta hipótese. Igualmente, este movimento de digitalização pode estar aprofundando as desigualdades no âmbito dos AFs, tendo em vista que a maioria do segmento ainda apresenta baixo grau de acesso às TICs e uma gama variada de outras vulnerabilidades sociais. Desse modo, para reduzir as assimetrias dos distintos grupos de AFs, a digitalização da comercialização aparece como uma agenda estratégica de grande importância para a política de desenvolvimento rural do Brasil nos próximos anos, merecendo mais atenção do Estado e das organizações de classe representativas da agricultura familiar.

 

Referências: GAZOLLA, Marcio; AQUINO, Joacir Rufino de. Reinvenção dos mercados da agricultura

familiar no Brasil: a novidade dos sites e plataformas digitais de comercialização em

tempos de Covid-19. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, p. 427-460,

jun. 2021. DOI: https://doi.org/10.36920/esa-v29n2-8.

 

Autores: Marcio Gazolla - Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (PPGDR/UTFPR). Doutorado em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com período de Doutoramento Sanduíche na Universidade de Pisa, Itália; Joacir Rufino de Aquino - Professor Adjunto na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Mestrado em Economia Rural e Regional pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).