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Revisão da estimativa do PIB agropecuário brasileiro em 2020 e em 2021

Com base nas novas estimativas divulgadas no mês de outubro para a produção agrícola em 2020 do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do IBGE, e em projeções próprias para a pecuária a partir dos dados das Pesquisas Trimestrais do Abate, Produção de Ovos de Galinha e Leite, o Grupo de Conjuntura da Dimac do Ipea revisou a projeção da taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB) do setor agropecuário de 1,6% (como divulgado na Visão Geral da Carta de Conjuntura nº 48) para 1,9% em 2020.

A estimativa de maior crescimento é explicada pela melhora nas previsões do IBGE para componentes importantes – em termos de valor adicionado – da lavoura e por números mais positivos também para a pecuária, em especial decorrentes das revisões dos resultados observados de produção nos últimos meses. Nossa previsão para o valor adicionado da lavoura é de alta de 3,9%, ao passo que o da pecuária é de queda de 1,5%. A projeção do componente outros,2 por sua vez, foi de redução de 6,4% (gráfico 1).

Gráfico 1 - Previsão de crescimento do PIB agropecuário 2020 por componente (taxa de variação em relação ao ano anterior, em %)

Fonte: Ipea (2020).

De acordo com o Censo Agropecuário de 2006, culturas de soja, milho e café têm 98%, 68% e 61% de sua produção concentrada nos dois primeiros trimestres, respectivamente. A variação das estimativas dessas culturas para 2020 entre os meses de maio e setembro foi de pelo menos 1,8 p.p. Com as revisões positivas dos principais produtos da lavoura referente ao fechamento do mês de setembro, o PIB Agropecuário nos dois primeiros trimestres tende a ser revisto positivamente pelo IBGE em novembro, junto com a divulgação do resultado do terceiro trimestre. A expectativa dessa revisão tem impacto para a revisão do PIB do setor para o ano de 2020. 

Na comparação da produção dos principais produtos da lavoura de 2020 – soja, cana-de-açúcar, milho e café – frente a 2019, apenas o milho apresentou estimativa de queda, ainda que marginal, na produção para este ano (gráfico 2). Mesmo assim, como já mencionado, as novas estimativas do LSPA para a produção agrícola em 2020 contaram com revisão positiva para a soja, o milho e o café.

Gráfico 2 - Estimativas de produção para a lavoura segundo o LSPA, por produto (out./2020) (Taxa de variação em relação à safra anterior, em %)

Fonte: Ipea, com dados do IBGE (2020).

A soja teve crescimento revisado de 6,6% para 7,0% e segue como o produto com maior peso no valor adicionado da lavoura. Com a colheita finalizada nas principais regiões produtoras, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima recorde histórico da produção de grão no país para a safra 2019/2020 – que é contabilizada pelo IBGE no ano civil de 2020. O aumento da demanda no mercado
internacional, combinado com a queda na produção de soja dos Estados Unidos, um câmbio favorável para as exportações e boa produtividade foram responsáveis pela expansão da produção nesta safra e pela manutenção da posição de maior produtor mundial do grão.

As revisões do milho e do café também contribuem para uma revisão positiva do resultado do PIB Agropecuário. Para o milho, a produção total para 2020 ainda apresenta queda em relação à produção do ano passado: -0,1% em setembro ante -0,4% estimada em agosto. Segundo a Conab, apesar do aumento da área plantada do grão em quase todas as regiões, exceto Sudeste, o produtor vem enfrentando adversidades climáticas em 2020, com impactos variados na produtividade. Com efeito, segundo o LSPA de outubro, a queda média prevista é de 3,2% na produtividade dessa cultura. O Grupo de Conjuntura aponta, no entanto, que a estimativa de produção em patamares próximos do ano anterior, que foi quando o Brasil alcançou sua máxima histórica, é um dado positivo para o setor.

A estimativa de alta para a produção de café foi novamente revisada pelo IBGE, saindo de 19,4% em agosto para 21,5% em setembro. Além do ano positivo da bienalidade do café, em especial da variedade arábica, o clima foi um dos fatores que contribuíram para o bom resultado do setor e para a contribuição elevada para o valor agregado da lavoura em 2020.

No sentido contrário, a estimativa para a produção de cana-de-açúcar apresentou revisão negativa, com crescimento reduzido de 3,7% para 3,4%. Ainda assim, se ela for confirmada, o ano de 2020 encerrará com alta na produção depois de quatro anos consecutivos de queda. O LSPA de outubro aponta aumento de área plantada (0,8%) e ganho de produtividade (3,2%) comparado com a safra anterior, o que explica o bom desempenho do setor para este ano.

O desempenho da pecuária, como apontado na Carta de Conjuntura no 48, continua com estimativa de  queda para o ano de 2020, explicada principalmente pelo acentuado declínio na produção de carne bovina em relação a 2019. No entanto, os dados do Sistema de Inspeção Federal (SIF) para a produção animal já indicam tendência de recuperação no abate bovino, tendo inclusive retornado ao patamar pré-Covid-19 do início do ano. Vale destacar que a queda na produção bovina esperada para 2020 tem, entre suas causas, o elevado volume de abates, inclusive de matrizes, da segunda metade do ano passado, puxado pela demanda aquecida e pelo preço elevado, que gerou problemas do lado da oferta. Enquanto isso, o abate de suínos permanece em nível elevado e o de aves apresenta recuperação, depois do baixo desempenho no segundo trimestre

Levando em conta os dados das pesquisas trimestrais da pecuária divulgados pelo IBGE, a produção de carne bovina apresenta queda acumulada no ano de 5,2%. Os dados do SIF indicam que o terceiro trimestre, quando comparado ao mesmo período do ano anterior, ainda deve manter queda elevada por conta do alto número de abates no terceiro trimestre de 2019, que apresentou um número de abates mais elevado que nos anos anteriores. No quarto trimestre, no entanto, o Grupo de Conjuntura espera que a queda interanual da produção de carne bovina seja menor, fazendo com que o segmento feche o ano de 2020 com queda de 4,3%, inferior à observada até o momento (gráfico 3). Para suínos e ovos, esperamos uma pequena desaceleração em relação ao resultado acumulado no ano. Porém, é esperado que os dois apresentem bom resultado ao final de 2020 com altas de 7,8% e 3,2%, respectivamente. A produção de leite, todavia, não deve contribuir muito para um resultado menos negativo da pecuária e deve crescer 0,2% no ano de 2020.

Gráfico 3 - Estimativas para a produção pecuária versus resultado acumulado até junho de 2020 (Em %)

Fonte: Ipea, com dados do IBGE (2020).

Para o ano de 2021, o Grupo de Conjuntura revisou a projeção de crescimento do PIB Agropecuário de 2,4% para 2,1%. A revisão para baixo da elevação do PIB Agropecuário em 2021 se deu por conta do aumento da base de comparação – com o melhor resultado esperado para 2020. Foram utilizadas as projeções do primeiro levantamento do Boletim de Grãos da Safra 2020/2021 da Conab e de lavoura da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). As projeções para os componentes da pecuária foram calculadas a partir de modelos econométricos próprios. É importante ressaltar, no entanto, que essas projeções para 2021 ainda são bem preliminares, com base nas primeiras informações divulgadas pela Conab e pela FAO. O IBGE ainda nem divulgou seu prognóstico inicial da próxima safra.

Nossa estimativa para o valor adicionado da lavoura é de crescimento de 1,8%, puxado principalmente por uma expectativa de novas safras recordes de soja (7,1%) e milho (2,6%) para 2021. No entanto, a queda em outras culturas deve compensar parte da contribuição positiva desses dois grãos. A Conab estima que as produções de arroz e algodão devem cair 2,7% e 6,3%, respectivamente. Além disso, estimamos que o café deve ser o produto com maior contribuição negativa devido ao ano negativo de sua bienalidade, com queda na produção prevista em 10,6%. Para a pecuária, nossa expectativa é de crescimento de 3,9%, com contribuição positiva de todos os segmentos – bovinos, frango, suínos, leite e ovos – liderados pela produção de carne bovina, que deve crescer no ano que vem, revertendo a queda
observada em 2020. Em relação ao componente outros, por sua vez, nossa projeção é de queda de 2,4%.

Autores: Pedro M. Garcia, Ana Cecília Kreter, Fabio Servo e José Ronaldo de C. Souza Jr (Ipea).

Acesse o texto completo da Carta de Conjuntura Nº 49 do IPEA

 

Fonte: Ipea